quinta-feira, 14 de maio de 2009
Antisepsis
by sterile gauze
I lose
my beauty
the sunshine
You gave me
Yoked
by antisepsis
making me fearful
not lovable
I sleep cowardly
with the foolish kind
of wise
instead of learning
to love
I distrust them
for I've seen
what they're capable of
in armoirs
of secret skeletons
though
convincing otherwise
I seem to understand
the man from Galilee
better these days
as he walks among
the putrid
infectious
downtrodden of Nazareth
of whom by chance
I became a part
and so prefer to exchange
my holiness for their sin
as I've seen
it's better to be
sinful rather than
become childless
hidden in the dusky closet
of drunken probity
For what is justice?
What is godliness?
What is love?
Except for me to stand
before You face to face
and be moulded by your
shine and revealing
thoughts
terça-feira, 5 de maio de 2009
Da Natureza Revisitada ou o Dealbar de um Novo Dia

De profundis clamavi ad te, Domine
Revisitando lugares
por Ti
despertos em mim
tornados Vida
ardente expectação
inclino-me
pego em sementes
deliberadamente lançadas
nos sulcos do meu espírito
Trago à memória Palavras
inscritas no branco
da madeira talhado
com tinta humana
Promessas de curso de água
qual fluxo emanado da cabeça
de um rei
conduzido por Teu Espírito
a lugares secos escabrosos
da popular cultura eclesiástica
assumida por Teu Povo
por demasiado tempo
sem resultado
Mostras-me a glória da segunda Casa
do novo Templo espiritual
não absorvido pelas coordenadas
do espaço e do tempo
Guias-me
através de Teu irresistível olhar
Abres outra porta diante de mim
Aparição de novo caminho
que é afinal desde a eternidade
Sei que serás minha vanguarda evolutiva
meu devir histórico
Assentar-Te-ás à minha sombra
surpreendendo incessantemente
meu Devorador pessoal
Fazes-me promessas de Amor
juras à minha posteridade
Dizes que nela confirmarás
a obra saída de minhas mãos
e as palavras de minha boca
A tantos quantos meu coração
se entregar
por Amor de Ti
por quantos vier a morrer
para guardar com Vida
Tua aliança que permanece
intacta para sempre
A tantos quantos me deres
prometes que serás seu ouvido
e seu entendimento
que tomarão posse da Terra
juntamente com todas
as Tuas gerações
Dás-me sonhos humorados
Fazes-me viajar por quadros
bem pintados em tela
de complexa simplicidade
entrelaçada
Mostras-me religiosos
assim como "ímpios"
Quem aguarde "hóstia santa"
e quem tenha fome de letras vivas
«Aos primeiros, os das hóstias simbólicas»
dizes jucosamente
«não lhes será dado mais
que "batata frita"»
passada por Teu óleo escaldante
óleo que queimará o que quiseres
e pelo sal
que lhe conferirá agradável
paladar
Pelo espanto em seus rostos vejo
que ainda não Te contemplaram
de verdade
Deixa, então, que provem Teu
delicioso appetizer
«Um Livro
será colocado à mão direita
dos últimos
os que supostamente Me não buscam
dentre poderosos
intelectuais
ateias e banais celebridades
e outras vaidades
o qual degustarão
com particular deleite
e em si estará presente
quando se assentarem em juízo
julgando Nações, Povos e seus Príncipes»
Vejo igualmente um mercado
onde a agitação dos que limpam
e vendem peixes
é verdadeiramente desoladora
Lá me encontro observando
quem procura comprar
pelo menor preço possível
assim como quem intenta vender
sem grande lucro perder
É visão angustiante
pois sei que é tempo de crise individual
de profusas trevas sobre a terra
e não escolheram a melhor parte
a que prometeste a dado passo
que não lhes seria de modo algum
roubada
A meio do sonho, um rosto
familiar
Trata-se de alguém que caminha publicamente
exibindo um sorriso
Mas cujo espírito vejo aqui
desorientado
mortificado por intensos trabalhos
quase inúteis
A certa altura é-lhe trocada a
posição geográfica no mercado
Mas nem assim se esfumam
a perturbação e o cansaço
daquela linda face
cedo designada para espelhar
a Tua glória
Fico obcecada com a revelação
Quem me dera soprar-lhe
da sublime contenença
toda a espessa nuvem
de bafientas preocupações gestativas
e típicos receios de parturiente
Agarram-se a metodologias corroídas
pelo tempo
a processos historicamente rançosos
pretendendo
chegar ao fim com vida
não a Tua, mas a sua
Tendo Tu de antemão advertido
quem quisesse salvar a sua alma
que acabaria por perdê-la
Estes fizeram do Teu Templo
quatro paredes de concreto
e da Tua Herança massas anónimas
de gente
invisível por maior destaque
que lhe seja dado no palco
inaudível por maior que seja
a amplificação do grito
dolorosamente sufocado
em suas gargantas
intocável
pobre
em seus gélidos e inseguros
abraços
que precisa ainda de Teus profetas
para saber que Tu a observas
atentamente
detidamente
e a consideras Realeza
lugar de Nobre Aliança
e de firme potencial
Cambistas e homens de negócio
juntamente
profanaram Teu lugar espiritual
de culto
fazendo dele o que jamais ocorrera
ao Teu Espírito fazer
apegando-se a clerical padrão
no âmago
fatalmente ferido
escondendo-se em penumbroso cenáculo
negando o sopro que enviaste
para movê-los
a fim de pô-los em marcha
impelindo-os para as ruas
do Teu testemunho
onde se assentam os presos
em frias cadeias tenebrosas
lugares por onde jazem
estropiados cegos
adormecidos
desprovidos de entendimento
e de visão
sem caminho aberto diante de si
sem ouvidos aptos
para escutarem o Teu Som
peixes de todas as dimensões e espécies
por Ti
cultural
civilizacional
espiritualmente
considerados
Esquecem o profético episódio
em que Teu Filho se viu
compelido a remodelar-lhes
o paradigma de culto
expulsando os que vendiam
como os que compravam
obrigando-os
por força de distintas
circunstâncias
a sair do confortável lugar
escavado na penumbra
das coisas que apenas possuem
aparência de santidade
deitando por terra as mesas
dos que trocavam a Tua moeda
por outra
e as cadeiras dos que vendiam
pombas intentando
aprisionar Teu Espírito
em torno de seu próprio desígnio
de sua tacanha visão terrena
sobre medíocres
métodos de frutificação
implementação e crescimento
de um Reino nascido
em Ti
de Ti
por Ti
para Ti
que é afinal escândalo
para os da Tua própria Raça
e loucura para os que se consideram
sabiamente instruídos
por Teu conselho
Mas Tu escondes-Te
em quem não tem já medo
de cavalgar nas asas do Teu vento
de arrazoar juntamente
com Tuas múltiplas linguagens
culturais
de buscar-Te com saudade
no Teu esconderijo
porquanto não teme o homem
nem seus esquemas vulgares
e descobriu o Amor que lhe foste
entretanto aperfeiçoando
ao longo da experimental jornada
Descerras então as cortinas
para que se veja
a mesa infinita do Teu banquete
real
e todos os Teus convivas
majestosamente sentados
Um novo dia nasce mais uma vez
alvejando o horizonte
do meu coração
domingo, 22 de março de 2009
Metaphysics: Benedictus (Baruch) de Spinoza: One Substance, Interconnected Motion of Matter
terça-feira, 10 de março de 2009
Exilados - II
Conclamados
Despertos por um novo cântico matinal
Assim acordaste Teus deportados
Levantaram-se
Despertaram-Te
como a um guerreiro entusiasmado
pelo vinho novo do Teu Espírito
Tal és Tu
Paz para os que Te encontram
homem de guerra
para os que Te oprimem
para os que oprimem a Tua herança
Grito vibrante na peleja
Suscitas um novo canto
em nossas gargantas
Tanges as Tuas cordas eternas
Não mais silêncio
Coração excitado
por Tua forte bebida
Doxologia perfeitamente extraída
das bocas de criancinhas de colo
que por sua singela maneira de ser
se dispõem a Teu arremesso
a visitar lugares ocultos
à memória dos homens
a navegar
em Teus mares
onde mergulha
toda a sorte de peixes
pequenos e grandes
e se banham outras criaturas
variedade incessante do Teu Amor
a ser porção seca
rodeada por Tua enchente
isolada por Teu mar
a ser deserto
árido e estéril
por um tempo
ou tempos
ou fracção de tempo
sinal para muitos
que Te procuram
sem Te acharem
sem reconhecerem Tua santidade
invisível
Dá-nos um homem que seja
limite
mar
ilha
deserto
para que testifique
e faça aparente
o que se não vê
Não nos dês ajuntamentos inúteis
possibilidades infinitas
terra firmemente familiar ou conhecida
amizades superficiais
que continuamente nos abracem
ou fontes que nos impeçam de ter
outra vez sede de Ti
Dos limites da terra
dos mares
das ilhas
dos desertos
extrairás louvor agradável
e os marcarás
como sinal perpétuo
aceitável e perfeito
para aqueles que os observam
Então será finalmente
reconhecida a tua justiça
e visível a santidade que transportam
os exilados do mundo
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Exilados - I
«Tu repreendes e disciplinas o homem por causa do seu pecado;
Sl. 39:11
«Meu filho,
Pv. 3:11, 12
«Entre os que me reconhecem incluirei Raabe e Babilónia(...)»
Sl. 87:4
«Junto aos rios da Babilónia nós nos sentámos e chorámos
Como poderíamos cantar as canções do Senhor numa terra estrangeira? (...)
(...) Ó cidade de Babilónia, destinada à destruição (...)»
Sl. 137: 1-4, 8
«Quando o Senhor trouxe os cativos de volta a Sião, foi como um sonho.
Sim, coisas grandiosas fez o Senhor por nós,
Aqueles que semeiam com lágrimas,
Sl. 126
«Assim, ao todo houve catorze gerações de Abraão até David,
Mt. 1:17
Exilados foram
transportados para longe
da vista
do coração dos homens
Estavam cobertos
de chagas vis
podres escaras que
a anestesiante apatia
acumulara
ao longo de dias de
cruel surda insensível
batalha
por Tua causa travada
Mas foi o Teu Amor
que os levou
a visitarem Babel
lugar de confusão de linguagens
espirituais
e de experiências dolorosas
para darem vida
a seus irmãos
e reanimarem
os prostrados do mundo
em perfeita identificação igualados
Lá os malditos
em ignominiosa ignorância
pediram-lhes cânticos
não discernindo
o Teu Amor que também é Paz
sustento na fome e
abrigo seguro na intempérie
Os cães uivando sempre
declararam-lhes o destino
Julgaram-nos
Disseram deles os religiosos
que se retalham nos templos
sacrificando em vão:
«Acabados estão! Vindo é já o seu fim!»
«Venham celebrar conosco!»
Mas não vêem
que lhes fizeste os caminhos
escorregadios
e podre a sua paz
Para tragá-los
num só momento
quando menos esperam
sem que possa haver socorro
Já os Teus,
caluniados, incompreendidos
humilhados
cuspidos no rosto
expoliados dos seus dons
sacudidos
para longe
completando
as dores do que foi
Ungido para reinar eternamente
Mas Tu mesmo
os arremessaste
para lá
para a terra da sua cura
Feriste-os
para poderes sará-los
Desenganaste-os
para poderes conduzi-los
por caminho plano
fiel
Confiscaste-lhes os bens
para que nada receiem perder
entregando-se
em Tuas mãos invisíveis
seguras
como nenhumas outras
Porquanto são Teus
Não como os bastardos
com quem nada tens em
comum
a quem tampouco conheces
pelo nome
Aqueles são Tua herança
para sempre
Babel é também Tua
Parte intencional do Teu plano
para os filhos dos homens
a quem queres bem
Mas vem o fim, o fim
dela vem!
E não se atrasará
Transitoriedade temporal
objecto limitado
no espaço e no tempo
do Teu insondável
Amor
Sião é, contudo, p'ra sempre
morada permanente de Justiça, Paz e Verdade
recriada da nova semente
incorruptível que plantaste
nos corações ensanguentados
da Tua deportação
A Ti traremos nossos molhos
atados com laços eternos
inquebráveis
Tu os ceifarás de nós
Teu sorriso enigmático
paira sobre todas as Tuas gerações
sobre nosso chamamento
datadas
até ao primo encontro com
o Teu Rei
do nosso avistamento
até ao Teu exílio
para onde nos arremessaste
na Tua sabedoria
do Teu exílio
de volta à face do Teu Rei
até que o Seu atraente
irresistível carácter
afunde
se aperfeiçoe
se confunda
em nós
catorze vezes três
Tua perfeição multiplicada
pelo Teu Filho
confirmação tríplice
do Teu Espírito
humorada simbologia
Tua perfeição
por minha humanidade
perpassada
espiritual insuflação
em narinas
de barro formadas
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Recriação
vd. «The Bible, Genesis & Geology»,
at http://kjvbible.org
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Árvores - Parte III
FIGUEIRAS
«Quem cuida de uma figueira, comerá do seu fruto;
quem cuida do seu senhor, receberá honra»,
dizia já o secular adágio.
A sua razão de existir nem sempre fora, todavia,
suficientemente conspícua ou motivadora.
Seria pelo formalismo sem conteúdo "ex traditione" herdado ou pelo conformismo atado pela cegueira do preconceito, medo do sacrilégio ou simples preguiça inimiga da criatividade?
O que é certo é que o papel na Terra do chamado "povo de Deus" apenas raras vezes fora devidamente entendido e imitado.
Mas, entender o papel da figueira é assunto, porventura, bastante mais simples...
Árvore, fonte de abrigo, sombra, alimento, vida. Folhas e frutos com propriedades terapêuticas desde há muito conhecidas.
Houve uma que, por não matar oportunamente a fome ao seu Senhor, secou, para grande admiração dos transeuntes. Certamente, era esperado desfecho diferente.
Houve outra que foi enxertada no lugar da que secou, ambas agora consideradas sob forma de oliveiras, mananciais de óleo santo. Mas, se a rejeição da primeira foi sinónimo de reconciliação universal, que será a sua aceitação, senão vida dentre os mortos? Pois, Deus tem poder para voltar a enxertá-la.
Que se dirá, igualmente, de rituais mortos e de celebrações formais, nos nossos dias?
O engano da superficialidade com que a figueira transita diariamente tem-na suplantado, atingida que está de tão mortal ferida. Como esperará, por seu esforço, escapar ou trazer bênção às nações, enganando-se a si mesma?
O lugar central de adoração tem sido sistematicamente profanado por todos os que a ele ritualisticamente acorrem, sem discernimento acerca do significado da figueira.
Têm-se esforçado, gritado a plenos pulmões. Continuam, porém, sem fôlego de Vida.
Parafraseando o rei que esteve um dia moribundo, sentenciado à morte, é impossível que a sepultura Te louve, os mortos não podem cantar o Teu louvor ou esperar pela Tua fidelidade. Somente os vivos Te louvam, os pais testemunham da Tua fidelidade aos seus filhos.
Como, pois, se poderá recuperar de tão letal chaga?
A resposta profética foi pronta:
«Apliquem um emplasto de figos na ferida, e sarará!»
Figos... O fruto individual das árvores em questão. O poderoso amor do Espírito diariamente experimentado e consistentemente vivido sob a forma de alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio, contra o qual não existe lei que possa prevalecer e que destrói todas as manifestas obras da inclinação naturalmente carnal.
É esse o sinal de que se pode, afinal, subir legitimamente ao templo do Senhor.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Metamorfose
Deus vem em temível majestade.»
- Jó 37:22
Chegaste no meio
da densa tempestade iluminaste o sentimento
Motivaste a cultura do espírito indiviso
solidificado na certeza da Tua liberdade
Falaste do meio
das profusas trevas produziste revelação
Acalmaste a aflição da dúvida constante
pela eterna certeza da Tua interrogação
Declaraste o meio
o processo de libertação do medo da Queda
do permanente dualismo contraditório
pela lei do Espírito e da Tua Vida
Concluíste o processo
encetado sobre o único receio que Te pode servir
o fundamento de um coração que tem pavor
de pecar contra Ti
Trouxeste, afinal, o epílogo
à dor da eterna contradição mortal
pela demonstração da Tua sabedoria
Promessa segura ao temor que te devem
terça-feira, 19 de agosto de 2008
Árvores - Parte II
A árvore cresceu tanto, que a copa se encostou ao céu, tornando-se visível até aos limites da Terra. Possuía bela folhagem, abundância de frutos bons, que podiam alimentar a todos suficientemente. Debaixo dela, havia abrigo para os animais do campo e as aves habitavam em seus ramos. Todas as criaturas se alimentavam dela.
O seu propósito existencial fora cumprido, qual vida encostada ao Deus vivo, verdadeiro, cuja plenitude é nela espelhada, passando a ser testemunhável por toda a gente, até aos confins da respectiva esfera de influência pessoal e ministerial. Essa pessoa transformara-se, assim, em alguém que cumpria uma visão, executava um mandato específico em nome do que a enviara, consumava uma era, tendo poder para curar feridas espirituais, emocionais e físicas, da mesma sorte que as folhas das árvores que permanecerem junto às águas hão-de servir de remédio que alimente a saúde de muitas nações.
Os frutos visíveis nessa vida eram realmente bons, próprios para consumo, apetecíveis, já que traziam verdadeiro e permanente sustento ao faminto e renovação de forças ao cansado e abatido. O seu "pão" era jogado sobre muitas "águas", não se negando intencionalmente a ninguém. Sob a sua copa, abrigavam-se todos quantos necessitavam da segurança e da sombra por ela providas, de maneira que conseguiam resistir ao forte sopro da tempestade, aos ventos sazonais contrários, assim como aos duros golpes de um sol implacavelmente escaldante, num longo dia de trabalho no campo.
A jornada tornara-se, pois, muitíssimo mais agradável consigo por perto.
Tanto homens, como anjos interagiam com aquele ser, em perfeita simbiose. Os primeiros, abrigando-se e nele encontrando abrigo verdadeiro. Os últimos, trazendo pronta ministração em seu favor, quais serviçais esvoaçantes, que atendem ao suprimento das necessidades dos seus senhores.
Igualmente, toda a casta espiritual adversa lhe estava sujeita, uma vez que executava justiça e exercia autoridade com verdadeira legitimidade, em nome de quem o enviara.
Então se fez ouvir o veredicto. No dia em que andava passeando descansado, satisfeito e próspero no seu palácio, inteiramente absorto na mediocridade dos seus próprios projectos, soou, no alto, a sentinela:
«Derrubem a árvore. Cortem-lhe os ramos. Arranquem-lhe as folhas. Espalhem os seus frutos.
Fujam os animais de debaixo dela e as aves dos seus galhos.
Deixem, porém, o remanescente do tronco com as raízes, agrilhoados com ferro e bronze, no chão, no meio da relva, da qual se alimentará juntamente com os animais, sendo coberto pelo refrescante orvalho celeste. Retirem-lhe o entendimento humano e deixem que se comporte como as bestas da terra até que o ciclo do tempo perfeito se complete, como está determinado a seu respeito.
Assim, se saberá a Quem pertence verdadeiramente o domínio, a autoridade e a glória e que os concede a quem designa, ao mais simples dos homens.»
Deixou que o engano o iludisse. Convenceu-se de que tudo quanto de grandioso lhe sucedera até àquele momento, derivara da sua capacidade e mérito pessoais. E achou que a finalidade de tudo aquilo era o seu próprio engrandecimento individual. Errou quanto ao meio e ao fim. Não quanto ao princípio. Não quanto às raízes, que estavam agora aprisionadas sob correntes humanamente inquebráveis, mas cuja existência representava, talvez, a possibilidade de um novo começo.
Acreditou à boa e estulta maneira de qualquer imbecil maldito, que toda a arquitectura da grande cidade em que habitava tinha sido planeada e edificada por sua própria mão, para sua glória individual.
Poderá haver satisfação mais mesquinha, cega e limitada do que a de não buscar um propósito maior, que nos transcenda a todos?
Tudo quanto fora determinado a seu respeito integralmente se cumpriu.
A mente humana foi-lhe tirada, tendo sido substituída por uma semelhante à dos que nada de realmente importante conseguem discernir. Consentânea, de resto, com a respectiva estultícia. Foi expulso de entre os que detinham autoridade e a quem se imputava a responsabilidade da governação do mundo. Passou a alimentar-se de manjar idêntico ao dos que servem sem discernimento algum. Contudo, seu corpo exposto às vulgares intempéries, era, ao mesmo tempo, banhado pelo orvalho celeste, enquanto seus pêlos e cabelos cresciam lenta e progressivamente, imperceptíveis, até que se tornaram protectoras penas de águia e suas unhas, aguçadas garras de ave.
Findo aquele interlúdio, ergueu os olhos para o Céu. Imediatamente, se apercebeu de que o seu entendimento voltara.
Então, louvou Aquele que lho tinha tomado para voltar a dar-lho.
Cobriu-O com a honra e deu-Lhe a glória que Lhe pertencia.
Compreendeu, finalmente, que Ele vive para sempre, que o Seu domínio é eterno, o Seu reino multigeracional, nada representando os povos da Terra diante de Si. Que age conforme Lhe parece bem para com o mundo espiritual, assim como para com o natural e não há quem Lhe possa resistir ou inteligentemente perguntar "Por que agiste desta forma?"
Miraculosa e inesperadamente, o rei recuperou o entendimento juntamente com a honra e majestade reais de que havia sido despido, bem como a glória do reino de que tinha sido destituído. Seus conselheiros e nobres procuraram-no. Reinvestiram-no no Trono e proporcionaram-lhe ainda maior e mais elevado estatuto do que o anterior.
«Agora eu louvo, exalto e glorifico o Rei dos Céus, porque tudo o que faz é correcto e todos os Seus caminhos são justos. Ele tem poder para humilhar os que vivem com arrogância.»
Até aqui a meditação da Árvore das árvores.
Quem, no meio da floresta, tiver ouvidos para ouvir, ouça.
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Árvores - Parte I
Ambas são cortadas, embora de formas distintas. As duas sofrem a fáctica dor da amputação. Uma, conhecendo a inevitável separação da vida ou a morte da grandiosa finalidade com que foi plantada, que é a morte da sua própria "alma". A outra, o "desmembramento" cirúrgico dos respectivos ramos e a metódica limpeza dos galhos que "se opõem" ao nascimento do fruto comestível, agradável ao paladar e a consequente renovação da vida.
Uma, perdendo irremediavelmente o propósito da comunhão com a fonte que alimenta e preserva a sua existência, acaba por perder, em última análise, a própria comunhão com a mesma fonte. A outra, "perde" apenas o que se interpõe no caminho, impedindo-a de frutificar ainda mais abundantemente.
Somente uma inteligência extraordinária poderá intuir e determinar em absoluto quais os ramos de que se pode esperar ainda suficiente e tragável fruto e aqueles que se encontram irremediável e definitivamente comprometidos, pelo facto do mesmo ser ocasional ou de má qualidade, já que nem tudo o que parece é.
Deixemos, então, as leituras de sentenças para quem está investido no cargo e possui legitimidade para fazê-lo e preocupemo-nos, antes, em "dar fruto" de qualidade, abundante e que satisfaça quem dele necessitar e se quiser alimentar.